Três a cada quatro empresas de família ‘morrem’ com criador

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Por Tatiana Lagôa


Nove a cada dez empresas sediadas no Brasil são familiares, segundo dados do IBGE. E apenas 48% dos donos de empresas com esse perfil no país, ouvidos em pesquisa da PwC realizada em novembro, disseram estar dispostos a profissionalizar os negócios, com ações como a contratação de mão de obra especializada no mercado para a gerência. O resultado é uma mortalidade precoce dos grupos, com apenas um quarto deles conseguindo chegar à segunda geração, revela a consultora organizacional Sônia Jordão. E, ainda segundo ela, dessas 25% de empresas familiares que vão para a segunda geração, só metade vai para a terceira. “Tudo é reflexo de má gestão e falta de preparo ou interesse dos herdeiros”, afirma a especialista.

Sônia Jordão explica que, no Brasil, existem tantas empresas familiares porque são enquadradas neste perfil todas as que têm condições de serem passadas para um herdeiro. Não entram nessa lista as com vários sócios e empreendedores, além das multinacionais. Uma característica comum a esse tipo de negócio é a participação de parentes na sociedade ou na gestão. Segundo pesquisa do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 37% das empresas de pequeno porte mineiras têm sócios ou empregados com algum grau de parentesco.

E é aí que está o grande risco para os resultados, segundo a especialista. Em sua análise, para o negócio dar certo, é preciso que a equipe seja composta levando em conta a competência do funcionário, e não os laços afetivos. E o processo sucessório tem que ser pensado desde cedo, segundo o professor de direito empresarial do Ibmec Leonardo Messano. Ou seja, é preciso pensar em quem vai assumir a diretoria em caso de ausência do fundador do empreendimento.

“É importante entender que herdeiro e sucessor não são sinônimos. Uma ausência de planejamento do processo sucessório pode gerar rupturas e descontinuidade da atividade”, afirma Messano. A crise econômica e as incertezas quanto ao futuro do país “abriram os olhos” de uma parcela dos empresários para essa realidade. Dentre aqueles que querem profissionalizar o negócio no Brasil, 69% vão buscar especialistas no mercado para gerenciar as equipes. Ao todo, 3.000 empresas familiares foram ouvidas, em 53 países na pesquisa da PwC. No Brasil, foram 163 grupos, dos mais variados setores. Segundo o sócio da PwC, Carlos Mendonça, a profissionalização do negócio é um dos passos da modernização da empresa. “Podemos dividir a jornada de uma empresa familiar bem-sucedida em algumas etapas: fundação, gestão familiar e profissionalização”, afirma.

Pensando exatamente assim, os herdeiros da Lafaete, referência na locação e venda de equipamentos para indústria, fizeram uma verdadeira revolução nos quadros da empresa. Desde 2001, quando o fundador morreu, seis filhos dele dividiam a gestão do grupo, que tem nove filiais. Mas, com a queda dos resultados, eles viram necessidade de mudanças. A situação ficou tão ruim que eles chegaram a demitir 40% do quadro de funcionários, hoje em 630 colaboradores.

Com a ajuda de uma consultoria, eles traçaram os novos rumos do grupo. Ficou definido que apenas dois dos irmãos que se destacaram ficariam na gestão. Os outros quatro foram substituídos por executivos de mercado e passaram a compor apenas o conselho. A mudança até chegou a gerar conflitos familiares, mas, no fim das contas, melhorou o desempenho operacional, segundo o atual presidente da empresa, Alberto Antônio da Silva. “Temos que separar o negócio da relação familiar”, afirma. Neste ano, a Lafaete recebeu R$ 12 milhões de investimentos na compra de equipamentos. Para 2019, serão R$ 20 milhões.

 

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